Deepfake e a Necessidade de Transparência e Autenticidade no Mundo Pós-Digital

 

Imagem produzida no Canva por Sônia Cotrim para identificar este post. 

No cenário contemporâneo, permeado pela onipresença da tecnologia assistida por Inteligência Artificial (IA), a temática da autenticidade e transparência assume uma relevância fundamental. Conforme destacado por Kissinger et al. (2021),

 "…a tecnologia assistida por IA tornar-se-á uma companhia permanente na percepção e processamento de informação, embora ocupe um plano 'mental' diferente dos humanos. Se a enxergamos como uma ferramenta, um parceiro ou um rival, ela alterará nossa experiência enquanto seres pensantes, modificando de maneira definitiva nossa relação com a realidade."

Nesse cenário pós-digital, no qual as fronteiras entre realidade e simulação tornam-se cada vez mais tênues (Baudrillard,1990), especialmente diante da ascensão de tecnologias de manipulação de conteúdo, como os deepfakes, a busca pela verdade e genuinidade transforma-se em um desafio imperativo. As máscaras digitais, construídas por técnicas avançadas de manipulação de mídia, obscurecem a linha que separa o autêntico do fictício, exigindo uma reflexão profunda sobre os alicerces de nossa interação digital.

 

Entendendo o Contexto Digital Pós-Moderno - Da Democratização da Informação à Emergência da Simulação de Baudrillard

Na era das redes digitais, a democratização do uso e consumo de mídias redefiniu radicalmente o conceito de espaço público e formação de opinião. O que antes se limitava a um número restrito de fontes de informação destinadas a uma ampla audiência transformou-se em uma multiplicidade de plataformas, desde redes sociais até blogs e sites, permitindo a qualquer indivíduo disseminar conteúdo de forma praticamente gratuita. Essa metamorfose, impulsionada pela onipresença da internet em nossas vidas, deu lugar a uma dinâmica constante de interação e conexão.

Na esteira das transformações provocadas pela era digital, a teoria da simulação de Baudrillard emerge como uma lente perspicaz para compreender as dinâmicas contemporâneas. Segundo o pensador, enquanto a simulação envolve a imitação ou reprodução de algo que existe na realidade, o simulacro vai mais longe, criando algo que não tem um equivalente tangível no mundo real. Para Baudrillard, a sociedade contemporânea está cada vez mais imersa em simulacros, onde a representação e a simulação tornam-se mais proeminentes do que a própria realidade original.

Entretanto, essa aparente fluidez na conexão também traz consigo ambivalências, paradoxos e contradições, desafiando especialistas, comunicadores e usuários críticos. Os desafios atuais concentram-se nas questões relacionadas à autenticidade e transparência no vasto universo digital. Em um ambiente onde qualquer pessoa pode se transformar de receptor a emissor instantaneamente, as questões sobre o que procuramos, o que é mostrado, que rotas seguimos e o que compartilhamos adquirem uma relevância fundamental.

Entendendo Deepfakes: Desafios à Confiança e Autenticidade


“O termo deepfake refere-se às mídias sintéticas nas quais imagens ou sons capturados de determinadas pessoas são substituídos pelos de outras por meio de técnicas avançadas de aprendizagem de máquina e Inteligência Artificial (IA), com a finalidade de manipular conteúdos visuais e/ou sonoros, com enorme potencial de falseamento da realidade”. (Fanaya, 2021)

 

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“Embora o termo original fosse fakevideo, o nome deepfake se popularizou a partir da história de um usuário do site Reddit, que se apelidou de Deepfake e, especializado em inteligência artificial, passou a substituir rostos de pessoas em filmes. O termo passou então a ser associado a essa técnica, que opera a fusão de imagens em movimento, gerando um novo vídeo, cujo grau de fidedignidade é elevado a um patamar que somente com muita atenção se consegue notar se tratar de uma montagem.” (Medon, 2021)

 

O fenômeno do deepfake, ilustrando a capacidade de criar vídeos e imagens falsos convincentes, torna-se uma porta de entrada para questões mais profundas no mundo pós-digital. No âmago dessas reflexões está a indagação sobre a verdadeira identidade dos indivíduos presentes na rede. As máscaras digitais que criamos lançam dúvidas sobre a autenticidade das interações online, questionando quem está por trás dessas representações.

Em suma, o deepfake é muito mais do que uma curiosidade tecnológica; exige uma reflexão sobre a construção da identidade online, a busca por transparência e a confiança em um ambiente onde a linha entre realidade e representação virtual está cada vez mais difusa.

DeepFake em Foco: Entre a Ressurreição Criativa de Dalí e os Desafios Éticos na Política

Making-of da instalação 'Dali Lives' no Museu Salvador Dalí na Flórida, revelando o processo de criação do vídeo com uma Deepfake do pintor.

As tecnologias deepfake introduzem um paradigma ambíguo no cenário contemporâneo, apresentando tanto vantagens quanto desvantagens. Por um lado, a capacidade de criar conteúdos visualmente convincentes por meio de manipulação digital pode ter aplicações criativas, exemplificadas pela reconstrução digital realizada no museu de Salvador Dalí. Essa técnica oferece a oportunidade de ressuscitar figuras históricas para interagir com o público, proporcionando experiências educacionais e culturais inovadoras.

No entanto, essa mesma tecnologia se torna uma ameaça significativa quando utilizada de maneira maliciosa, como no caso das deepfakes que disseminam desinformação e distorcem a realidade, representando um risco potencial para a sociedade, política e ciência. 

Vídeo que apresenta uma Deepfake do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pedindo que os compatriotas se rendessem à Rússia e abaixassem as armas.

O fato é que, seja em contextos aparentemente positivos ou em situações tipicamente maliciosas, as deepfakes suscitam discussões. O exemplo do museu que recria Dalí (aparentemente positivo) levanta questões éticas sobre consentimento, especialmente quando aplicado a pessoas falecidas, destacando a necessidade de abordagens criteriosas e regulamentação para o uso responsável dessas tecnologias. Questionamentos como os de Medon (2021), ao indagar: "...poderia um museu recriar digitalmente um avatar virtual de um famoso pintor para que ele explicasse o conteúdo de suas obras aos visitantes e interagisse com eles?" mostram que a finalidade parece ser um norte importante, que não pode ser negligenciado.

Em última análise, embora as tecnologias deepfake ofereçam possibilidades inovadoras, sua gestão cuidadosa é importante para mitigar os riscos associados à sua utilização indiscriminada.

 

Valorização da transparência como um princípio ético

As tecnologias deepfake, que possibilitam a criação de conteúdos audiovisuais falsos e convincentes, introduzem um paradigma complexo no qual a autenticidade se torna uma mercadoria escassa. O potencial dessas ferramentas para disseminar desinformação e distorcer a realidade acende um alerta para a urgência de estabelecer mecanismos eficazes de autenticação digital. Em um mundo onde a confiança é essencial, a transparência se torna a chave para desvendar as máscaras digitais que ameaçam distorcer nossas percepções e manipular narrativas.

Diante desse desafio, a inovação ética emerge como um ponto importantíssimo na busca pela autenticidade no mundo pós-digital. O desenvolvimento de tecnologias que não apenas detectem deepfakes, mas também promovam ambientes digitais mais transparentes, se apresenta como uma oportunidade estratégica, assim a ética digital, ancorada na preservação da verdade e integridade, torna-se um farol orientador na complexa paisagem do ciberespaço.

No entanto, a jornada em direção à transparência e autenticidade não é isenta de obstáculos. A proliferação acelerada das tecnologias digitais exige uma reflexão contínua sobre os limites éticos, legais e sociais de sua utilização. Como sociedade, enfrentamos a responsabilidade de equilibrar a inovação tecnológica com a preservação dos valores fundamentais que sustentam a confiança em nossa interação digital.

E assim como Kissinger et al (2021), temos que firmar o compromisso de

 “…compreender esta transição, e desenvolver uma ética condizente (o que com certeza) exigirá o empenho e a visão de muitos elementos da sociedade: cientistas e estrategas, estadistas e filósofos, religiosos e empresários. Este compromisso terá de ser nacional e internacional. É agora o momento adequado para definirmos tanto o tipo de parceria que teremos com a inteligência artificial como a realidade que daí resultará.

Com a certeza da necessidade de enfrentamento desse desafio, fica o convite para que trilhemos o caminho para um futuro digital mais confiável e verdadeiro!

 

Referências Bibliográficas

Baudrillard, J. (1990). Simulacros e simulação. Tradução de Maria João da Costa Pereira. Relógio d'Água. https://monoskop.org/images/c/c4/Baudrillard_Jean_Simulacros_e_simula%C3%A7%C3%A3o_1991.pdf

Fanaya, P. F. (2021). Deepfake e a realidade sintetizada. TECCOGS – Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, 23, 104-118. https://revistas.pucsp.br/index.php/teccogs/article/view/55982/37930

Kissinger, H., Schmidt, E., & Hottenlocher, D. (2021). A Era da Inteligência Artificial. D. QUIXOTE. https://www.google.com.br/books/edition/A_Era_da_Intelig%C3%AAncia_Artificial/vURPEAAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&dq=Kissinger,+H.,+Schmidt,+E.,+%26+Huttenlocher,+D.+(2021).+A+Era+da+Intelig%C3%AAncia+Artificial.+D.+QUIXOTE.&printsec=frontcover

Medon, F. (2021). O direito à imagem na era das deepfakes. Revista Brasileira de Direito Civil – RBDCivil, 27, 251-277. https://rbdcivil.ibdcivil.org.br/rbdc/article/view/438


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