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Nuvem de Palavras criada por Sônia Cotrim no WordArt. |
O que é Cibercultura?
O prefixo "ciber" é
derivado do termo "cyber", que tem suas raízes na palavra inglesa "cybernetics",
um campo de estudo que trata dos sistemas de controle e comunicação nos
seres vivos e nas máquinas. Originalmente, "cybernetics" foi
cunhado pelo cientista Norbert Wiener na década de 1940 para descrever
a relação entre sistemas de controle e comunicação em máquinas e organismos
vivos (Chaves & Bernardo, 2020). Com o tempo, o termo "cyber"
passou a ser associado a conceitos relacionados à tecnologia da informação e
à internet, e foi amplamente adotado em palavras compostas para denotar
temas relacionados ao mundo digital e à comunicação em rede, como “cibercultura”,
“ciberespaço”, “cibersegurança”, entre outros. Já a palavra “cultura” é
um termo amplo e multifacetado que abrange uma variedade de significados e
interpretações. No contexto ora analisado, refere-se ao conjunto de padrões
comportamentais, crenças, costumes, valores, práticas, símbolos, arte e formas
de expressão que são característicos de um determinado grupo ou
sociedade. (Santos, 1996)
Na segunda
metade do século XX, surgiu o neologismo “cibercultura” em alguns textos
literários e, nos anos 80, Pierre Lévy, filósofo e teórico da comunicação,
desenvolveu o conceito de cibercultura, que se refere à interseção da
cultura, da sociedade e da tecnologia digital, o que seria um "…modo
de vida que surge da interconexão dos seres humanos numa rede digital mundial."
(Lévy, 1999)
Segundo Lévy, a
cibercultura é caracterizada pela formação de comunidades virtuais, troca de
informações, criação de conhecimento coletivo e reconfiguração das práticas
culturais e sociais através das tecnologias digitais e da internet. Ele
enfatiza a capacidade da cibercultura de facilitar a criação de redes de
interações sociais e de produção de conteúdo colaborativo, promovendo uma
nova forma de inteligência coletiva (Lévy, 2017) e participação democrática. O autor destaca a importância de compreender a cibercultura como um fenômeno
dinâmico e em constante evolução, que influencia e é influenciado
por processos culturais e sociais mais amplos, pois, segundo ele, “…não há nenhum fundo
sólido sob o oceano das informações. Devemos aceitá-lo como nossa condição.
Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar.". (Lévy,
1999, p.15)
Convivendo com o
Dilúvio informativo
"Quando Noé, ou seja, cada um de nós, olha através da escotilha de sua
arca, vê outras arcas, a perder de vista, no oceano agitado da comunicação
digital. E cada uma dessas arcas contém uma seleção diferente. Cada uma quer
preservar a diversidade. Cada uma quer transmitir. Estas arcas estarão
eternamente à deriva na superfície das águas." (Lévy, 1999, p.
15).
Levy aborda a metáfora
da Arca de Noé ao refletir sobre a natureza exponencial e caótica do
crescimento da informação no ciberespaço. Ele compara a arca do dilúvio
bíblico, que era única, fechada e totalizante, com as "arcas"
do segundo dilúvio, que interagem entre si, trocam sinais e abrigam
pequenas totalidades sem pretensões ao universal. Essas arcas representam
as seleções individuais de dados e conhecimentos que cada indivíduo ou grupo
preserva e transmite no meio do dilúvio informacional.
Lévy discute a ideia de que, embora o dilúvio informacional nunca cesse, é essencial aceitá-lo como nossa nova condição e aprender a navegar dentro desse contexto. Ele destaca a importância de preservar a diversidade e promover a cooperação, reconhecendo a interconexão das mensagens e o papel das comunidades virtuais na atribuição de significados variados em constante renovação. Ao utilizar a metáfora da Arca de Noé, Lévy ressalta ainda a necessidade de proteger e transmitir o conhecimento em meio à inundação de informações, sublinhando a responsabilidade na criação e na preservação de um novo universal interativo.
Papéis
Complementares da Responsabilidade Individual e da Responsabilidade Grupal na Era Digital
Nesse contexto de
“dilúvio informativo”, que permeia nosso cotidiano, tanto a responsabilidade
individual quanto a responsabilidade grupal tornam-se essenciais.
Segundo Lévy (2019), “…temos uma grande responsabilidade pelo que ocorre online. O
que quer que esteja acontecendo é resultado do que todas as pessoas estão
fazendo juntas; a internet é a expressão da inteligência humana coletiva.”. Essa abordagem dual de
responsabilidade individual e grupal na preservação do patrimônio cultural no contexto da cibercultura pode influenciar positivamente a forma como as informações são
filtradas e preservadas.
Ao promover uma
cultura de responsabilidade individual, os usuários podem desenvolver habilidades
críticas para discernir e promover conteúdo cultural autêntico e relevante,
combatendo a disseminação de informações falsas e estereótipos prejudiciais.
Além disso, a colaboração em grupo pode ampliar o alcance e a
diversidade do patrimônio cultural online, garantindo a representação de
diferentes tradições e expressões culturais. Através de práticas colaborativas,
como o compartilhamento de recursos, a coleta de histórias e a promoção de
eventos culturais, os grupos podem criar espaços virtuais inclusivos que
valorizam e preservam a riqueza da herança cultural da sociedade humana.
Exemplos Significativos: Construindo Conexões na Era da Cibercultura
É inegável que a
cibercultura tem se estabelecido como uma parte fundamental do cotidiano contemporâneo,
moldando a forma como nos comunicamos, aprendemos e interagimos online. Para
demonstrar como a cibercultura abrange uma variedade de fenômenos
significativos na era digital, a seguir, são apresentados exemplos concretos de
tais fenômenos no cotidiano.
1. REDES SOCIAIS
Um exemplo
notável é a ascensão das redes sociais, como o Facebook, o X
(antigo Twitter) e o Instagram, que transformaram a interação social,
permitindo que as pessoas se conectem e compartilhem informações
instantaneamente em escala global. Segundo Lévy (1989, p. 130), "…os amantes da cozinha mexicana, os
loucos pelo gato angorá, os fanáticos por alguma linguagem de programação ou os
intérpretes apaixonados de Heidegger, antes dispersos pelo planeta, muitas
vezes isolados ou ao menos sem contatos regulares entre si, dispõem agora de um
lugar familiar de encontro e troca…", porque essas
redes sociais possibilitam a formação de comunidades virtuais diversificadas,
onde os usuários podem compartilhar interesses comuns, participar de debates e
colaborar em projetos coletivos, o que reflete a interconexão dos seres humanos
por meio da cibercultura. Além disso, o surgimento de comunidades virtuais e
fóruns de discussão especializados, como o Reddit e o StackOverflow, demonstra como a cibercultura tem facilitado a formação de grupos
com interesses comuns e o intercâmbio de conhecimentos especializados.
Para aprofundar
essa temática, propõe-se a análise do novo Relatório Global Digital (Global
Digital Reports), divulgado
em janeiro de 2023, pela "We Are Social", no qual contém dados e informações importantes para
compreender as últimas tendências. Desse relatório, foi transcrito o gráfico a
seguir que apresenta as plataformas de redes sociais mais usadas no mundo.
| Plataformas de Redes Sociais Favoritas segundo o Relatório Global Digital |
Ainda nesse
universo das redes sociais, outro exemplo importante é o advento da cultura
de memes. Segundo Oliveira (2019), “o
que faz de um meme, um meme na cultura digital, é especialmente seu potencial
de construção compartilhada de sentidos e significados, que abre possibilidades
para a consolidação de novas experiências de memória coletiva dos indivíduos
por meio da replicação e difusão de informação e conteúdo a outros sujeitos em
conexão”, o que ilustra como
a cibercultura influencia a criação e a propagação de ideias, humor e
comentários sociais por meio de imagens, vídeos e textos virais.
2. Plataformas de Aprendizagem
Online
O surgimento de plataformas
de aprendizado online, como o Moodle, Canvas, Udemy, Coursera,
Khan Academy entre outras, demonstra como a cibercultura tem
transformado a educação, permitindo o acesso a cursos e materiais de
aprendizado de alta qualidade a uma audiência global diversificada.
Segundo Lévy (1999, página 184) “…o
essencial se encontra em um novo estilo de pedagogia, que favorece ao
mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em rede.
Nesse contexto, o professor é incentivado a tornar-se um animador da
inteligência coletiva.”. Pode-se identificar esse "novo estilo de pedagogia no eLearning que vem
provocando uma verdadeira reinvenção do processo de aprendizagem, uma vez
que permite a rápida transmissão e atualização de informações. Além disso,
facilita a criação de comunidades virtuais de aprendizagem, possibilitando a
comunicação individual ou em grupo, bem como um acesso mais flexível a
materiais educacionais. O que, por sua vez, promove a autoaprendizagem,
colocando o indivíduo no centro de sua própria jornada de conhecimento
Graças a essas características, percebe-se um crescimento significativo da EaD. A divulgação do Censo da Educação Superior 2021 comprova a forte expansão da EaD no Brasil, o que só vem confirmar o que Lévy já previa em 1999, ao afirmar que “…a aprendizagem a distância foi
durante muito tempo o "estepe" do ensino; em breve irá tornar-se,
senão a norma, ao menos a ponta de lança”. (Lévy, 1999, p. 170)
| Gráfico disponível no Censo da Educação Superior 2021 |
3. Crowdsourcing e
Colaboração Online
Outro exemplo são as iniciativas de crowdsourcing,
como os hipertextos da Wikipedia e projetos de código aberto, os quais demonstram a capacidade da cibercultura de promover a colaboração coletiva e a
produção de conhecimento compartilhado. Por meio dessas plataformas, indivíduos
de diferentes partes do mundo podem contribuir com informações e habilidades
únicas para a criação e o desenvolvimento de conteúdo colaborativo, ilustrando
a visão de Lévy sobre a cibercultura como um espaço propício para a coleta e
compartilhamento de conhecimento diversificado e global. Nesse contexto de
hipertexto, a inteligência coletiva ganha mais força, uma vez que “…o hipertexto é dinâmico, está
perpetuamente em movimento. Com um ou dois cliques, obedecendo por assim dizer
ao dedo e ao olho, ele mestra ao leitor uma de suas faces, depois entra certo
detalhe ampliado, uma estrutura complexa esquematizada. Ele se redobra e
desdobra à vontade, muda de forma, se multiplica, se corta e se cola entra vez
de outra forma. Não é apenas uma rede de microtextos, mas sim um grande
metatexto de geometria variável, com gavetas, com dobras. Um parágrafo pode
aparecer ou desaparecer sob uma palavra, três capítulos sob uma palavra do
parágrafo, um pequeno ensaio sob uma das palavras destes capítulos, e assim
virtualmente sem fim, de fundo falso em fundo falso…” (Lévy,1993, p. 24)
O autor afirma ainda que, quanto mais alguém se envolve no processo de adquirir conhecimento e acumula experiência nesse método, maior será seu envolvimento, interação, compartilhamento e, por conseguinte, a retenção do que foi aprendido, ou seja, “…o pretenso sujeito inteligente nada mais é
que um dos micro atores de uma ecologia cognitiva que o engloba e restringe. (Lévy,
1993, p. 83)
Para aprofundar essa temática, propõe-se a
visita à Wikipédia, especificamente a uma página dedicada ao Crowdsourcing.
| Print da página da Wikipédia sobre Crowdsourcing. |
4. Influência
Crescente da Cibercultura no Brasil
No contexto brasileiro,
não é diferente. O impacto e a influência crescente da cibercultura demonstram
como a tecnologia e a internet têm transformado os comportamentos e as
interações sociais no país. Segundo estudo realizado pela Comscore, o Brasil é
o 3º país que mais consome redes sociais no mundo! É possível se aprofundar no
assunto, visualizando o estudo Tendências de Social Media - 2023, do qual
foi retirado o gráfico apresentado abaixo:
| Gráfico da Pesquisa Tendências de Social Media - 2023 |
Além das redes
sociais que vem moldando os padrões de comunicação e interação social online, alguns
exemplos notáveis de cibercultura no Brasil incluem o e-commerce que
ganhou destaque no país, uma blogosfera vibrante e diversificada, com
uma infinidade de blogs e vlogs abordando uma ampla gama de
tópicos, o ativismo online que tem encontrado uma voz ativa na internet,
com campanhas e petições online mobilizando comunidades em torno de questões
sociais e políticas importantes, além é claro, da disseminação da educação a
distância, por meio de plataformas de aprendizado online que permite um
maior acesso à educação e ao treinamento em diversas áreas do conhecimento.
Considerações
Finais
Na esteira da crescente influência da cibercultura no tecido social contemporâneo, é fundamental empreender uma análise abrangente e holística das forças, oportunidades, fraquezas e desafios inerentes a esse fenômeno. Enquanto muitas discussões tendem a se concentrar predominantemente nas vantagens e possibilidades que a cibercultura traz consigo, é imprescindível reconhecer que uma reflexão equilibrada deve considerar também as possíveis fraquezas e desafios. Em sua obra, Pierre Lévy demonstra um compromisso notável em apresentar uma análise abrangente e equilibrada das complexidades inerentes a esse domínio em constante evolução, então, considerando o exemplo do pensador, para recapitular o que foi tratado neste texto, sugere-se a visualização do conteúdo interativo a seguir, produzido no genial.ly. No arquivo, são listados tanto forças e oportunidades, quanto fraquezas e desafios relacionados à cibercultura, utilizando diversos elementos interativos, o que, por si só, já é um exemplo de cibercultura.
Diante da
complexa realidade da cibercultura, é imperativo considerar que a rápida disseminação
da informação e o aumento da conectividade global têm ampliado
significativamente as oportunidades de acesso a recursos educacionais e
estimulado o surgimento de novas expressões artísticas e oportunidades de
negócios online. No entanto, a sobrecarga de informações, a dependência
excessiva de tecnologia, a propagação de desinformação e as preocupações
crescentes com a segurança cibernética são apenas alguns dos desafios que
exigem uma abordagem cuidadosa para navegar com sucesso utilizando as muitas
arcas digitais.
Por fim, para sobreviver
e prosperar nesse cenário em constante evolução, é fundamental adotar
estratégias adaptativas e proativas. Uma abordagem equilibrada que promova o
discernimento crítico na seleção de informações relevantes, além de incentivar
o desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico e digital, é essencial
para enfrentar a sobrecarga de dados e a propagação de desinformação. Investir
em medidas de segurança cibernética robustas, promover a conscientização sobre
a privacidade digital e desenvolver políticas regulatórias [General Data Protection Regulation (GDPR) – União Europeia / Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) – Brasil] é fundamental para mitigar os riscos associados à segurança
online e proteger a privacidade dos usuários. Além disso, é imperativo explorar
e capitalizar as oportunidades oferecidas pelas tecnologias inovadoras, pela
educação online de alta qualidade e pela expansão das comunidades online, a fim
de fomentar o crescimento e a resiliência em meio ao dilúvio informacional da
cibercultura.
Referências
Bibliográficas
Chaves, V.H.C, Bernardo, C.H.C. (2020). Norbert Weener:
história, ética e teoria. https://doi.org/10.1590/1980-4369e2020017
Crowdsourcing (09 de novembro de 2023). In Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Crowdsourcing
Lévy, P. (1999). Cibercultura. Editora 34. https://www.giulianobici.com/site/fundamentos_da_musica_files/cibercultura.pdf
Levy. P (2017). Inteligência coletiva na prática. Fronteiras do Conhecimento. [Vídeo Youtube]. https://youtu.be/zovtnO7da4I?si=5XU0NQYVtUUwj0OU
Lévy, P. (2019). Filosofia,
Ciência, Futuro e Tendências Globais. https://www.fronteiras.com/leia/exibir/pierre-levy-a-questao-e-como-usaremos-as-novas-tecnologias-de-forma-significativa-para-aumentar-a-inteligencia-humana-coletiva
Oliveira, K. E.J., Porto, C. .M., &
Alves, A. L.. (2019). Memes de redes sociais digitais enquanto objetos de
aprendizagem na Cibercultura: da viralização à educação. Acta Scientiarum. Education, 41, e42469. Epub.2019. https://doi.org/10.4025/actascieduc.v41i1.42469
Santos, J.L (1996). O que é Cultura (16ªedição). Editora Brasiliense. https://producoeseconhecimentos.files.wordpress.com/2015/02/o-que-c3a9-cultura-josc3a9-luiz-dos-santos-pp21-50.pdf



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